Ulisses Horta Simões

Introdução

O chamado “Movimento de Plantação de Igrejas” foi uma expressão de pensamento missiológico que caracterizou significativa mudança de foco no mundo evangélico, dos anos Oitenta para os anos Noventa em diante. De acordo com Os Guiness (escritor britânico, pertencente à Igreja Anglicana nos Estados Unidos, onde reside), o foco predominante nos anos Oitenta estava nos direitos cristãos, o apelo político do seu papel, e as discussões sobre a vida pública do cristão; os anos Noventa, porém, foram marcados por um forte reacendimento do apelo missiológico, da expansão da igreja[1]. No seu artigo, Guiness ressalta a alteração da ótica: antes, voltada para o passado; agora, voltada para o futuro.

As origens do movimento estão ligadas à percepção do declínio do número de membros assíduos às igrejas, ocorrido na década de Sessenta. Diante dessa constatação, os estudiosos do assunto remontam ao quadro reinante nas igrejas da Europa e da América do Norte, no pós-guerra.

No livro Church and Denominational Growth[2], Kenneth Inskeep discorre um capítulo inteiro sobre a história do movimento. Como resultado de sua pesquisa, ele principia referindo-se à “Tese Kelley”. Dean M. Kelley (1926-1997) foi um ministro da Igreja Metodista norte-americana, que tornou-se executivo do NCC (National Council of Churches), e membro da junta de direção da ACLU (American Civil Liberties Union). Sua pesquisa e suas conclusões tinham um interesse mais focalizado nas questões sócio-políticas do que nas teológico-estratégicas. No livro Why Conservative Churches Are Growing (Harper & Row, New York, 1972), Kelley sustenta que as igrejas conservadoras estavam crescendo por duas razões principais: (1) sua religião provê respostas às questões mais relevantes da atualidade; (2) há seriedade em seu apelo ao comprometimento pessoal dos fiéis. Importante notar que, para Kelley, o espectro de “igrejas conservadoras” era amplo: desde batistas do sul, até mórmons e Testemunhas de Jeová, passando por pentecostais…

A “Tese Kelley” parecia algo confortador… Não obstante, o declínio na membresia continuava… Na denominação presbiteriana do norte dos EUA (UPCUSA), foi tão preocupante, que acelerou o processo de fusão com a PCUS (sul), iniciado em 1958 e consumado em 1983. A “Tese Kelley”, de acordo com Inskeep, passou a ser fortemente debatida e até rejeitada por alguns pesquisadores, os quais se dividiam em dois grupos: os que creditavam certo crescimento em algumas denominações a fatores contextuais (localização geográfica, penetração social, contexto da vizinhança, etc.) e os que creditavam-no a fatores institucionais (comprometimento histórico e religioso, estrutura organizacional, programas planejados de evangelismo, envolvimento em missões, etc.).

Em meio a tantas pesquisas e debates, dois expoentes da escola de missões do Seminário Fuller, na Califórnia, tornam-se protagonistas primários do que ficou conhecido como Movimento de Crescimento da Igreja (Church Growth Movement).

Donald McGavran (1897-1990) e Charles Peter Wagner (1930-2016) foram, portanto, os protagonistas mais destacados do movimento, do qual o primeiro costuma ser reverenciado como “pai”. O livro The Bridges of God (As Pontes de Deus), publicado em 1955, ganhou alto interesse e repercussão a partir de 1965, quando o autor organizou a Escola de Missões do Seminário Fuller. Os conceitos de McGavran se fundamentam em alguns pontos vitais: a autoridade da Escritura em missões e evangelização, a dependência acentuada da unção do poder do Espírito Santo, a prioridade em evangelização e missões para os dias contemporâneos, a inclusão de elementos pragmáticos (tais como estatísticas e pesquisas de campo), o uso da correta metodologia para cada contexto, a construção de pontes aproveitando oportunidades ao alcance e, como clímax, a adoção de planos concretos de plantação de igrejas. Quando dele se aproximou Peter Wagner, em Pasadena, este inseriu nuances do seu pensamento junto a McGavran.

Peter Wagner juntou-se a McGavran, no Fuller, a partir de 1971, depois de 15 anos atuando como missionário na América do Sul (1956 a 1971). A pujança do crescimento pentecostal e neo-pentecostal na parte meridional do continente impressionou-o muito. Sua obra Cuidado: Vêm os Pentecostais, publicada originalmente em 1973 (Look Out! The Pentecostals Are Coming), foi revisada, incorporando conceitos da chamada “Batalha Espiritual” e do pragmatismo da fenomenologia pentecostal.

Como resultado de tudo isto, vale dizer, uma onda de influência sobre o interesse, as pesquisas e as ministrações sobre “Plantação de Igrejas” acabaram por influenciar a América, do norte ao sul do continente. Modelos de igreja atrativa (ou, com propósitos) foram desenvolvidos, na esteira das proposições de Rick Warren; outros modelos, tais como “Igreja Missional”, “Igreja Compartilhadora” (Preach God to Friends and Neighbours Model) e “Igreja Ganhadora de Almas”, foram sendo propostos, a partir de novas publicações na esteira do movimento.

Num interessante artigo[3] publicado em Outubro de 1999 na revista eletrônica da Orthodox Presbyterian Church norte-americana, Martin Murphy, pastor de uma igreja ARPC (Associate Reformed Presbyterian Church), em York, estado do Alabama, assinala, sob a revisão de Michael Horton, as características teológicas mais notórias do movimento: soteriologia  arminiana, teologia do culto  eclética, metodologias pragmáticas e centralidade do homem, em vez de Deus, em questões de fé e prática. Não seria demais mencionar que, em países de Terceiro Mundo (como o Brasil), incluíram-se, com força, algumas premissas da chamada “Missão Integral”, que perdem a real distinção entre missão e ação social.

Essas influências fizeram-se notórias também no Brasil. O conceito de “Plantação de Igrejas”, não raro, e em maior ou menos escala, está ligado a tais premissas teológicas; daí ser altamente fundamentado em perspectivas contextuais e institucionais. Como tal, aspectos ligados ao estabelecimento de templos, montagens de planos orçamentários, planos estratégicos e estratégias metodológicas ocupam o  centro das atenções, tanto na elaboração quanto na execução prática, em boa parte do ambiente. Faz-se desafiador apelo tácito pela ancoragem de uma prática sadia de plantação e crescimento de igrejas à sadia teologia reformada e confessional.

 

Uma Percepção Oportuna do Evangelho

Muitos têm discorrido sobre o paradigma paulino para plantação e crescimento da igreja. O apóstolo Paulo é, e com razão, tomado como modelo de “plantador de igrejas”, em seu ministério apostólico retratado no Novo Testamento. Sem menosprezar este notável paradigma, humildemente proponho, neste artigo, um paradigma ainda mais sublime: o “MODELO ‘JESUS’ DE ‘PLANTAÇÃO DE IGREJA”. Ora, já que o próprio Paulo convocou os crentes a ser seus imitadores, como também ele foi de Cristo (I Co 11.1), que tal pesquisar os evangelhos quanto à possibilidade de Jesus ter sido um modelo de imitação para Paulo na área que nos interessa? Observando as páginas dos quatro evangelhos com a lente do interesse desta pesquisa, encontramos sete marcas dignas de se acentuar, quando se pensa em “plantação de igrejas”, as quais vou apresentar logo adiante.

Mas, já vou logo prevendo: talvez, quem leu estas linhas até aqui, e comece a ler as sete marcas, desista logo para ir à conclusão; pode ser que pense – isto tudo eu já conheço… Eu perguntaria a esse apressado: será que conhece mesmo? Será que vale a pena atalhar o caminho para ir logo à conclusão? Entendendo que não, proponho as sete marcas:

  1. Modelo Pessoal
  • O que tornou Jesus tão distinto, como mestre, em relação aos escribas judeus? O que, se não a maneira pela qual se dirigia ao povo a ensinar, com autoridade, e não como mero orador incoerente? => Mt 7.28,29; Jo 7.45-46.
  • Em outras palavras, para Jesus é de suma importância a coerência entre a vida pessoal e a pregação => Mt 23.13-36; Jo 18.19-24.
  • Desde cedo, como um autêntico “filho da aliança”, Jesus já se destacava em seu conhecimento da Palavra de Deus => Lc 2.41-52.
  • Jesus se envolvia diretamente com gente, sem acepção de pecadores e publicanos => Mt 9.10-13; Mc 2.15-17; Lc 15.1,2.
  • Jesus não apenas ensinava a Lei; Jesus cumpria a Lei! => Mt 5.17; 17.24-27
  • Todo o episódio desde a prisão até à crucificação de Jesus autentica um personagem inocente, santo, acusado, maltratado e morto injustamente, que não fez, contudo, um movimento sequer para reivindicar seus direitos legais, cumprindo Is 53.7-10 => Mt 26.47 a Mt 27.61.
  • Jesus fazia muito por muitos, mas, ao contrário de muitos de hoje, detestava publicidade => Mc 3.12; Mc 8.26.
  1. Pastoreio
  • O Sermão do Monte de Jesus é a mais magnífica ‘pastoral’ jamais proferida por um pastor.
  • Jesus não apenas ensinou a orar (Mt 6.9-15) e a jejuar (Mt 6.16-18), como também se tornou modelo indiscutível de oração e jejum (Mt 17.21, Mt 26.36-46; Mc 1.35). Vide, ainda => Lc 11.1-13 e Lc 18.1-8.
  • O afã pastoral incondicional de Jesus, pelas ovelhas perdidas da casa de Israel, contagiou seus colaboradores => Mt 10.5-15.
  • Talvez, o ponto mais alto do ministério pastoral de Jesus tenha sido o seu “Vinde a mim…” => Mt 11.28-30.
  • Sua auto-declaração como “o bom pastor”, distinto dos mercenários, é exemplar => Jo 10.1-18.
  • A doutrina dos religiosos hipócritas foi alvo das ‘vacinas’ de Jesus => Mt 16.6-12;
  • Jesus, ao contrário de muitos pastores, hoje, que parecem esquecidos das crianças, deixou claro o seu grande apreço por elas, surpreendendo a muitos adultos => Mt 18.1-5, 10, 14; Mt 19.13-15; Mt 21.15-16; Lc 18.15-17.
  • Jesus, mesmo sendo rei e soberano, sempre passou a mensagem genuína de humildade => Mt 21.1-12; Lc 14.7-14; Lc 18.9-14; Lc 22.24-30. Quanto a este mesmo assunto, é lapidar e inigualável o episódio do “lava-pés” aos discípulos (Jo 13.1-20).
  • O padrão da disciplina cristã ministrado e praticado por Jesus foi desafiador, mas foi sublime => Mt 18.15-20, 21-22, 23-35; Lc 7.36-50 (a pecadora que ungiu os pés de Jesus) e Jo 8.1-11 (a mulher adúltera).
  • Mesmo seus próprios discípulos precisaram ouvir lições preciosas contra a discriminação, o juízo temerário e pela valorização do serviço de outrem => Mt 26.6-13.
  • No tocante às ofertas e contribuições, é magistral a lição de Jesus com a viúva pobre (além de viúva, pobre!). Não é o perfil de gente mais valorizado por muitos pastores contemporâneos!!) =>Mc 12.41-44.
  • Jesus não descartou nem desdenhou das irmãs, isto é, as ovelhas do segmento feminino => Lc 8.1-3.
  • Para Jesus, a vida devocional é o maior de todos os bens pessoais => Lc 10.38-42.
  • A instituição e celebração da primeira ceia foi um ato pastoral de inigualável singularidade e valor, que se encerrou com o cântico de um hino – Jesus e seus discípulos => Mt 26.17-30.
  • A palavra pastoral de Jesus não se esquecia de trazer ampla consolação, usando a Escritura => Lc 24.13-35.
  • O trabalho pastoral de Jesus incluía o elemento ‘sacerdotal’: a intercessão por suas ovelhas => Jo 17.1-26.
  • Mesmo cravado na cruz, preocupou-se com sua mãe e seu discípulos => Jo 19.26,27.
  • O trato com Pedro, após a negação, foi algo incomparável, sublime, singular => Jo 21.15-23.
  1. Ensino e Pregação
  • O ensino e a pregação de Jesus continham de tudo que a Escritura contém: lei, evangelização, teologia do Pacto, teologia sistemática (todas as áreas), ética cristã… Basta fazer um apanhado pelos quatro evangelhos, para se perceber que Jesus era completo, como mestre e pregador => Lc 24.44.
  • A credencial de Jesus como mestre e pregador foi inequivocamente autenticada => Jo 12.44-50.
  • Jesus começou o seu ministério percorrendo toda a Galiléia (não era a região mais, digamos, promissora, da Palestina) e ensinando nas sinagogas => Mt 4.23; na Judéia, seu ensino era diário => Lc 19.47; 21.37.
  • O Sermão do Monte é, não apenas o mais sublime modelo pedagógico e didático, como também a mais excelente aula de hermenêutica aplicada à Lei de Deus, e o mais atualizado compêndio de ética cristã => Mt 5 a 7; aliás, isto se repete => Mt 15.1-20; Mt 19.3-12; Lc 19.1-10.
  • A imprescindível teologia do Pacto foi alvo de asseverações precisas da parte de Jesus => Mt 11.2-19; Mt 12.3-8; Mt 20.1-16; Mc 2.23-28.
  • Jesus, como profeta, não deixou de denunciar publicamente o pecado e a dureza de coração => Mt 11.20-24.
  • Por exemplo, veja-se a sua reprovação contra a avareza e a inversão de valores => Lc 12.13-21.
  • Todas as áreas da doutrina bíblica foram vividamente ministrados por Jesus: eclesiologia, adoração e santificação (Mt 21.12-13; Jo 2.13-22); vigilância pessoal (Lc 12.35-48), antropologia sadia (Lc 13.1-5), cristologia (Jo 5.19-47, Jo 8.21-59), soteriologia (Jo 3.1-15, 16-21; Jo 6.41-59), união espiritual com ele (Jo 15.1-27), teologia do culto (Jo 4.1-30), pneumatologia (Jo 14.16-31; 16.1-24), escatologia (Mt 12.38-42; Mt 13; Mt 20.17-19; Mt 24; Mt 25; Mc 4.26-29; Lc 16.19-31; Lc 17.20-37)…
  • Para Jesus, ensinar é uma atividade de alta demanda no seu caráter prático => Mt 51-52.
  • Como pregador, não apenas Jesus admoestou; foi, também, hábil em consolar => Jo 14.1-31; 16.25-33.
  • Para ele, palavras bem proferidas, sem obediência à Palavra de Deus, nada valem => Lc 11.27-28.
  1. Apologética
  • A defesa da genuinidade da fé e da compreensão da Palavra de Deus ocorreu em vários enfrentamentos públicos de Jesus: fariseus (Mt 12.1-8; Mt 12.24-32, 33-37; 38-42; Mt 22.15-22; 34-40; Lc 11.37-44), sacerdotes e anciãos (Mt 21.23-27), sacerdotes e fariseus (Mt 21.33-46), saduceus (Mt 22.23-33), escribas e fariseus (Mt 23.1-36), escribas (Lc 11.45-52), judeus (Jo 7.14-24).
  • Em muitas dessas oportunidades, percebe-se a maestria de Jesus em fazer perguntas aos seus inquiridores, conquistando os benefícios da “tática do contra-ponto”[4]; observe-se, ainda => Mt 22.41-46; Mc 11.27 a 12.34; Jo 10.22-42.
  • Os sinais de Jesus tinham um forte caráter de atestação apologética; é o caso das bodas em Caná (Jo 2.1-12), da primeira multiplicação de pães e peixes (Mt 14.13-21), da repreensão do mar revolto (Mt 14.33), das curas (Mt 15.31), da segunda multiplicação (Mt 15.32-39), a cura do paralítico em Cafarnaum (Mc 2.1-12), a cura do surdo-gago (Mc 7.31-37), as ressurreições, como a do filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17), e a de Lázaro (Jo 11), a cura do paralítico de Betesda (Jo 5.1-18), a cura do cego de nascença (Jo 9.1-41), entre outros tantos…
  • A transfiguração no monte foi um eloquente atestado apologético => Mt 17.1-8
  1. Missão às Cidades e Povoados
    Antes de tudo, espero que, ao ler este sub-título, não pense o leitor que a sua adoção já se identifica com alguma ‘escola’ de pensamento de “missões urbanas”, como a de Raymond J. Bakke (1938-…), a de McGravan, a de Wagner, ou qualquer outro, ou mesmo com as de suas premissas. Simplesmente porque não está identificada… Uso a expressão “missão às cidades e povoados” no sentido mais independente possível das premissas acima mencionadas; focalizo apenas Jesus e os evangelhos.   
  • Desde o início de seu ministério, Jesus percorria as cidades curando toda sorte de doenças, prática que continuou por onde quer que andou => Mt 4.23,24; Mt 9.35.
  • É importante, porém, notar que não havia discriminação dos lugares pequenos, preteridos em favor dos grandes centros: Jesus percorreu “toda a Galiléia” (Mt 4.23), e alcançou tanto as cidades quanto os povoados, ou vilas (Mt 9.35).  
  • Para Jesus, curar e tratar das feridas não era estratégia de “missão integral”, mas, expressão de amor, de compaixão, e senso de cumprimento messiânico da Escritura => Mt 8.16,17; Mt 9.36; Mt 23.37-39; Lc 19.41-44.
  • Mesmo quando desacompanhado dos seus discípulos, Jesus se ocupou de “missões urbanas”, nas vilas e cidades deles => Mt 11.1.
  • A atuação missionária de Jesus nas cidades e povoados não poderia deixar espaços vagos: as povoações vizinhas das primeiras alcançadas também tinham que ser alcançadas => Mc 1.38-39.
  1. Evangelização
  • A maioria das parábolas de Jesus tinha um forte componente evangelístico: Mt 13.1-9, 24-30+36-43, 31-32, 33, 45-46, 47-50; Mt 21.1-14.
  • A “Grande Comissão” (Mt 28.18-20) é um dos mais claros e indiscutíveis mandatos de Jesus aos seus discípulos; ao mesmo tempo, é também um dos mais ignorados e desobedecidos => Mc 16.14-18; Lc 12.8-9.
  • Sua evangelização focalizou o amor de Deus pelos Seus eleitos => Jo 3.16…
  • O apelo evangelístico de Jesus era apologeticamente simples e soteriologicamente direto: “arrependei-vos e crede nas boas novas” => Mc 1.15; cuidado com a negligência => Lc 12.54-59; atenção à metáfora das portas => Lc 13.22-30; a “grande ceia” => Lc 14.15-24; as parábolas dos “perdidos” (Lc 15.1-32); as metáforas, como ‘pão da vida” (Jo 6.22-40), a “fonte da água viva” (Jo 7.37-44), a “luz do mundo” (Jo 8.12-20), o ‘bom pastor” (Jo 10.1-18)…
  • Nem o episódio da rejeição dos samaritanos demoveu Jesus de seu afã de salvar (não de destruir almas) => Lc 9.56.
  • O próprio chamamento dos doze acentuava o caráter evangelístico da missão => Mc 1. 17.
  • Jesus ressaltou que a alegria pela salvação é maior do que conquistas sobrenaturais => Lc 10. 20.
  • A urgência da missão, da tarefa de evangelização, ficou inequivocamente estampada diante dos seus discípulos => Jo 4. 31-38.
  1. Discipulamento / Formação de Liderança
  • Deixo esta característica por último por ser ela a que se coloca como contraste direto frente aos muitos modelos e projetos de plantação de igrejas que hoje proliferam. Nestes, fatores como o estabelecimento do local de culto e a engenharia financeira estão entre os de preocupação mais acentuada; no de Jesus, a dedicação maior que deu aos doze que chamou para junto de si foi o ponto alto de seu ministério para com a igreja.
  • O princípio áureo do ministério de discipulamento está lapidarmente declarado por Jesus => Lc 6.40.
  • Jesus comprometeu os seus próprios discípulos (futuros apóstolos) a interceder pelo cumprimento da Grande Comissão, e pela urgência da dedicação a ela => Mt 9.37,38.
  • Quando Jesus chamou seus discípulos para acompanha-lo, delegou a eles incumbências das quais ele mesmo se fazia visceralmente incumbido => Mt 10.1; Lc 10.1-12.
  • O cuidado de Jesus com seus discípulos era intenso e contínuo => Mt 10.16-42.
  • Quando Jesus falou da necessidade de seus discípulos negarem-se a si mesmos e tomarem cruz para o seguir, nada falou do que ele mesmo não estivesse disposto a fazer => Mt 16.24-28; Lc 9.23-27…

Conclusão

Se Paulo, expoente da igreja que foi, conclamou seus discípulos a observarem seu modelo, na medida em que ele se modelava em Cristo, nada menos do que isto é merecedor, também, dos nossos empenhos.

As passagens acima colecionadas em amostra, tópico por tópico, mostram feições do ministério de Jesus, a [im]plantação da igreja que se tornou apostólica, que são dignas de cópia. Veja-se que Jesus não deteve sua atenção e seu foco em contexto e circunstâncias, em instalações físicas, em recursos (nem punha a mão no dinheiro, no tempo de sua peregrinação, posto que o tesoureiro era Judas Iscariotes). Seu foco  estava nas pessoas, especialmente os doze que ele chamou para junto de si.

Como mui acertadamente assinala Robert E. Coleman, em seu excelente (e ainda atualíssimo) livro The Master Plan of Evangelism (1964)[5], Jesus, ainda que tenha atendido multidões, as cidades, o templo, tenha desafiado os religiosos, muito mais concentrou ele seus esforços naqueles doze homens.

Como uma contribuição de conclusão, sumarizo, aqui, os 8 princípios de ação norteadores que Coleman identificou no ministério de Jesus:

  1. Seleção: Jesus se concentrou nas pessoas, escolheu alguns e os treinou.
  2. Associação: Jesus treinou os doze convivendo, relacionando-se com eles.
  3. Consagração: A expectativa e as ações de Jesus junto aos discípulos para promover, entre eles, confiança nele, de modo a que, vindo a ser seus discípulos, passassem a praticar obediência à Palavra de Deus, tal como ele próprio era obediente.
  4. Comunhão: Jesus se deu a eles e por eles; Jesus os amou incondicionalmente; Jesus os conduziu a viver no Espírito, recebendo dele o poder.
  5. Demonstração: Jesus mostrou a eles, em ações e exemplos, ilustrando seu ensino, como viver da Palavra e da oração, no Espírito; em tudo quanto Jesus lhes ensinou, ele próprio foi exemplo.
  6. Delegação: Jesus os comissionou, fornecendo-lhes a visão correta do ministério que teriam que desempenhar, quando sem ele; eles receberam um evangelho revolucionário, um Espírito atuante, e autoridade para representa-lo, dali por diante. A evangelização que fora sua tarefa perante eles, agora seria a tarefa deles perante o mundo.
  7. Supervisão: Jesus os incumbiu de tarefas, quando com ele, já treinando-os; eles adquiriram convicção de que, depois da partida de Jesus, eles não estariam sós… O alvo era a expansão pelo mundo. O cabeça continuaria sendo Cristo (Mt 16.18), pelo Espírito e pela Palavra.
  8. Reprodução: Jesus não deu outra alternativa aos seus discípulos/apóstolos, senão de reproduzir, com outros, o que ele com eles fizera. Este era o plano: reproduzirem e reproduzirem, geração após geração, o que ele mesmo tinha começado.

Portanto, o grande desafio para todos que, atualmente, se disponham a montar e executar um projeto de plantação de igreja, não reside nas coisas, nos objetos, na estrutura, no templo, nos recursos; tudo isto tem sua relativa importância, mas, o grande desafio, desde o tempo de Jesus, passando por Paulo e todos que os seguiram, continua residindo nas pessoas: evangelismo, que desemboca em discipulamento, que desemboca em formação de liderança! O resto, é mera consequência!

[1]              https://www.ligonier.org/learn/articles/church-growththe-movement-of-the-nineties (acessado em 04/03/2019),

[2]              David A. Roozen/C. Kirk Hadaway (ed.), Abingdon Press, Nashville, 1993.

[3]              https://www.opc.org/OS/html/V8/4c.html (acessado em 05/03/2019).

[4]              Com a tática do contra-ponto, que inclui a sublime arte de fazer perguntas, o apologeta cristão obtém 3 vantagens: qualifica corretamente a inquirição dos seus antagonistas, expõe a real intenção dos mesmos, e prepara o caminho para a resposta, quando ela for oportuna.

[5]              Publicado em língua portuguesa pela editora Mundo Cristão, sob o título O Plano Mestre de Evangelismo.

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3 Comments:

  • cmeinformatica
    Vanderlei Arruda
    março 14, 2019

    excelente argumentação a favor de plantação de igrejas e formação de novos discípulos de Jesus. Concordo integralmente com o texto em epígrafe.

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  • cmeinformatica
    Everaldo Ramos Porto
    março 15, 2019

    Excelente artigo, Rev. Ulisses! Oro para que o mesmo traga bons frutos para nossos tempos, onde visões e planos se expandem na tentativa de tornarem as missões cristãs mais efetivas, faltando-lhes uma séria consideração sobre como Cristo, primeiramente, lidou com a desafiadora missão que deu à sua igreja. Onde qualquer discípulo de Jesus atuou nessa esfera, desde o período apostólico, nada aconteceu de real valor sem que o mesmo Cristo tenha operado por seu Espírito e sua graça.

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  • cmeinformatica
    Elioenai Ferreira Pinto Bandeira
    março 20, 2019

    Rev. Ulisses, Aquietei meu coração e minha mente tão irrequieto e apressado a resultados, para seguir a orientação inicial de “…quem leu estas linhas até aqui, e comece a ler as sete marcas, desista logo para ir à conclusão; pode ser que pense – isto tudo eu já conheço…”. Realmente, o artigo foi muito instigante, mesmo que numa abordagem histórica inicial, que, quando muito minuciosa, torna-se cansativa, aqui seguiu despertando o interesse pelo que estava proposto. Temos nos desgastado ultimamente em pregar expositivamente em Lucas, mais precisamente no Evangelho, e com isso o artigo propiciou uma simetria com a exposição das mensagens já pregadas. Agradeço a indicação do artigo, e, certamente indicaremos os nomes para fazerem o CLC.

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